terça-feira, 1 de novembro de 2016

Sobre Moda, Racismo e inclusão.

Foto_ Editorial da Numéro Magazine Intitulado: " Africa Queen" 




 Foto_ (Black Face) Editorial Vogue Francesa


Foto_Editorial Diva Magazine (Revista inglesa)

 Foto_Editorial Vogue Itália


Historicamente a Moda sempre foi  uma configuração social do indivíduo e um meio funcional pelo qual se mantinha o abismo entre separação de classe, julgamentos estéticos, distinções individuais, e demais expressões  de uma determinada pessoa ou grupo.  Todo esse mecanismo é alimentado pela busca do  inatingível, sendo assim, dentro do Mercado até hoje se faz a lógica do  quanto mais inacessível..  mais prestigioso.  E é seguindo esse raciocínio que acredito ( primeira pessoa do singular) que o  "Mercado da  Moda " tal qual o conhecemos,  nunca vai aceitar de forma natural  os negros, o sobre peso,  ou qualquer outra minoria marginalizada pela sociedade.  

Pode parecer pessimista?! talvez.  Segura esse parágrafo, segue o texto.


A última temporada do SPFW teve dois desfiles muito repercutidos. A estréia  da marca  "LAB" na qual os donos são negros, e o casting foi formado por modelos em sua maioria negros e corpos fora do do considerado " padrão" para o mercado; e o desfile do estilista Ronaldo Fraga  que veio com um casting predominante de transsexuais.  Os dois desfiles causaram  grande comoção pela sua representatividade, e como toda grande comoção na era "on",  algumas muitas críticas e contradições também. Faz parte!   


Se gostei? Sim! Torço para que LAB  prospere, assim como acompanho há anos o trabalho do Ronaldo Fraga e a forma que ele caminha persistente  na busca de uma identidade brasileira  partindo do seu lugar "confortante"  ( da qual poderia ficar de boas desfrutando de seus privilégios ) em direção as margens, o que é sempre extremamente delicado e complexo.  (como bem aconteceu no SPFW em 2013, o que daria um outro bom texto). 


Como profissional do Mercado e  mulher negra, sinto necessidade de sair do olhar comum e  avançar além nesta discussão, que por incrível que pareça não é nova, e por isso  dá  importância de não a deixarmos torna-se velha, até que ocorram mudanças realmente estruturais nesse mercado extremamente racista e excludente.


O mundo todo vive a  pauta do empoderamento, e o Mercado da Moda não diferente,  cria partindo dos fatores sociais e  apropria-se até enjoarmos da pauta, pois por mais que contraditório, são as ruas que ditam as mudanças que vemos nas passarelas.Tudo dentro de um processo muito efêmero, rápido, e cíclico. Sendo assim, a  bandeira da diversidade é pauta antiga  que sempre retorna, porém não evolui além da Capa de Revista  ou do "Estilo Black Chuva de Likes", onde  bem cabe aquela frase que vêm sendo muito empregada: 
"Está na Moda ser negro, desde que você não seja negro"


Menos de dois meses antes do SPFW o conceituado estilista  francês   Jean Paul Gutier esteve no Brasil, e como símbolos representantes da cultura brasileira o que lhe foi apresentado: mulheres caracterizadas de baianas servindo acarajé,  performances de "mulatas", o show da amada Elza, etc. Aquela mesma ideia folclórica, primata, nem um pouco original e extremamente racista sobretudo, na hipersexualização do corpo da mulher negra. ( tudo com uma super produção envolvendo  vários profissionais  em consenso e total concordância em pleno 2016) 


Menos de um mês antes do SPFW  polemizou-se na Rede Social o conhecimento de que   uma marca de roupa fez um estampa racista. Penso: como isso passou por um Design de Estamparia, Assistente de estilo, estilista, coordenadora de estilo, e toda equipe de profissionais envolvidos no processo de uma coleção, com total naturalidade  e consenso ?!


Quem trabalha com Moda bem sabe que se você está acima do peso tem dificuldade de conseguir emprego até dentro do escritório como assistente de estilo ( pois a onda agora é a assistente de estilo, nas horas vagas, fazer a vez da Modelo de Prova. Acontece!).  Quem trabalha no mercado da Moda e é negro  ( um número extremamente pequeno) bem sabe que precisa ter o currículo dez vezes melhor, e preparar-se para ganhar muitas vezes menos, fora ter uma apresentação visual extremamente Black Estileira.  

Salvo raríssimas exceções.. essa é a regra!

Formação em Moda é caro e exige constância. Os mesmos  que comovem-se com a diversidade,  são contra políticas afirmativas que viabilizam correções históricas e uma vida mais igualitária para as minorias. Como bem costuma dizer o mestre Kabengele: "o racismo no brasil é um crime perfeito. Todos admitem a existência dele, mas ninguém assume-se racista". Como reparar?!

http://www.revistaforum.com.br/2012/02/09/nosso-racismo-e-um-crime-perfeito/


Voltemos para o primeiro parágrafo. 

Não acredito em evolução quando o discurso  não se internaliza. Não acredito em  mudança de ambiente, se o ser pertencente a este permanece - por comodidade e manutenção de privilégios - inalterado.  

Editores, estilistas, designers, diretores de elenco, fotógrafos, agentes de modelo, maquiadores, assessores de imprensa, jornalistas,  e demais profissionais racistas..  geram conteúdos,  criações, e estruturas racistas.  

Somos agentes da mudança e precisamos fazer com que esta discussão evolua para o segundo capítulo!  Acredito que somente com editores, estilistas, designers, diretores criativos, fotógrafos, agentes de modelo, assessores de imprensa, jornalistas, maquiadores,  e demais profissionais negros (as), trans, e gordos (as).  Geraremos conteúdos,  criações, e estruturas verdadeiramente  humanas,  plurais, e diversificadas. 


No mais.. é o velho "frisson"  que alimenta e re-inventa a semana de Moda. Ela precisa disso!



Ps. E é sempre um grande incômodo ler jornalistas, em sua maioria brancos, 
escrevendo: " SPFW aboliu a escravatura" "Os negros agora estão representados". Como em toda a história o  fizeram  perpetuando "mitos" que atrapalham em muito a busca pela verdadeira des-construção. É preciso pensar mil vezes antes de escrever. Racismo é coisa séria, cruel,  e se perpetua nos detalhes.

O papel de significar  onde os negros devam ou não sentir-se representados, o que é ou não racismo.. não lhes cabe! Os negros são (soa até patético ter que escrever isso)  "seres"  diferentes em trajetória, sensibilidade, personalidade, pensamentos e opiniões.. assim como qualquer outra pessoa. Não só  podem, como devem discordar entre si com total propriedade de sua singularidade.  É coisa nossa!



quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Lineyse Monteiro


República Dominicana, 19 anos.

Linda, simples, e autêntica. Lineyse Monteiro foi descoberta em um parque de diversões na República Dominicana e tumultuou o desfile da Prada em seu debut.  (fundo de cena: A Prada por muitos anos não desfilava nenhum modelo negra, hispânica,  em seus desfiles.  o que vêm sendo desconstruído desde 2008. Segue matéria sobre )
Fez os principais desfiles da última temporada, estampou capa das principais Revistas, e é um dos rostos da nova campanha da Chanel Primavera-Verão/2016 consagrando-se definitivamente como a face do momento no mercado da Moda.


instagram_ @lineysemonteiro

Boa Sorte!












Nova Campanha Chanel