Foto_ Editorial da Numéro Magazine Intitulado: " Africa Queen"
Foto_ (Black Face) Editorial Vogue Francesa
Foto_Editorial Vogue Itália
Historicamente a Moda sempre foi uma configuração social do indivíduo e um meio funcional pelo qual se mantinha o abismo entre separação de classe, julgamentos estéticos, distinções individuais, e demais expressões de uma determinada pessoa ou grupo. Todo esse mecanismo é alimentado pela busca do inatingível, sendo assim, dentro do Mercado até hoje se faz a lógica do quanto mais inacessível.. mais prestigioso. E é seguindo esse raciocínio que acredito ( primeira pessoa do singular) que o "Mercado da Moda " tal qual o conhecemos, nunca vai aceitar de forma natural os negros, o sobre peso, ou qualquer outra minoria marginalizada pela sociedade.
Pode parecer pessimista?! talvez. Segura esse parágrafo, segue o texto.
A última temporada do SPFW teve dois desfiles muito repercutidos. A estréia da marca "LAB" na qual os donos são negros, e o casting foi formado por modelos em sua maioria negros e corpos fora do do considerado " padrão" para o mercado; e o desfile do estilista Ronaldo Fraga que veio com um casting predominante de transsexuais. Os dois desfiles causaram grande comoção pela sua representatividade, e como toda grande comoção na era "on", algumas muitas críticas e contradições também. Faz parte!
Se gostei? Sim! Torço para que LAB prospere, assim como acompanho há anos o trabalho do Ronaldo Fraga e a forma que ele caminha persistente na busca de uma identidade brasileira partindo do seu lugar "confortante" ( da qual poderia ficar de boas desfrutando de seus privilégios ) em direção as margens, o que é sempre extremamente delicado e complexo. (como bem aconteceu no SPFW em 2013, o que daria um outro bom texto).
Como profissional do Mercado e mulher negra, sinto necessidade de sair do olhar comum e avançar além nesta discussão, que por incrível que pareça não é nova, e por isso dá importância de não a deixarmos torna-se velha, até que ocorram mudanças realmente estruturais nesse mercado extremamente racista e excludente.
O mundo todo vive a pauta do empoderamento, e o Mercado da Moda não diferente, cria partindo dos fatores sociais e apropria-se até enjoarmos da pauta, pois por mais que contraditório, são as ruas que ditam as mudanças que vemos nas passarelas.Tudo dentro de um processo muito efêmero, rápido, e cíclico. Sendo assim, a bandeira da diversidade é pauta antiga que sempre retorna, porém não evolui além da Capa de Revista ou do "Estilo Black Chuva de Likes", onde bem cabe aquela frase que vêm sendo muito empregada:
"Está na Moda ser negro, desde que você não seja negro"
Menos de dois meses antes do SPFW o conceituado estilista francês Jean Paul Gutier esteve no Brasil, e como símbolos representantes da cultura brasileira o que lhe foi apresentado: mulheres caracterizadas de baianas servindo acarajé, performances de "mulatas", o show da amada Elza, etc. Aquela mesma ideia folclórica, primata, nem um pouco original e extremamente racista sobretudo, na hipersexualização do corpo da mulher negra. ( tudo com uma super produção envolvendo vários profissionais em consenso e total concordância em pleno 2016)
Menos de um mês antes do SPFW polemizou-se na Rede Social o conhecimento de que uma marca de roupa fez um estampa racista. Penso: como isso passou por um Design de Estamparia, Assistente de estilo, estilista, coordenadora de estilo, e toda equipe de profissionais envolvidos no processo de uma coleção, com total naturalidade e consenso ?!
Quem trabalha com Moda bem sabe que se você está acima do peso tem dificuldade de conseguir emprego até dentro do escritório como assistente de estilo ( pois a onda agora é a assistente de estilo, nas horas vagas, fazer a vez da Modelo de Prova. Acontece!). Quem trabalha no mercado da Moda e é negro ( um número extremamente pequeno) bem sabe que precisa ter o currículo dez vezes melhor, e preparar-se para ganhar muitas vezes menos, fora ter uma apresentação visual extremamente Black Estileira.
Salvo raríssimas exceções.. essa é a regra!
Formação em Moda é caro e exige constância. Os mesmos que comovem-se com a diversidade, são contra políticas afirmativas que viabilizam correções históricas e uma vida mais igualitária para as minorias. Como bem costuma dizer o mestre Kabengele: "o racismo no brasil é um crime perfeito. Todos admitem a existência dele, mas ninguém assume-se racista". Como reparar?!
http://www.revistaforum.com.br/2012/02/09/nosso-racismo-e-um-crime-perfeito/
Voltemos para o primeiro parágrafo.
Não acredito em evolução quando o discurso não se internaliza. Não acredito em mudança de ambiente, se o ser pertencente a este permanece - por comodidade e manutenção de privilégios - inalterado.
Editores, estilistas, designers, diretores de elenco, fotógrafos, agentes de modelo, maquiadores, assessores de imprensa, jornalistas, e demais profissionais racistas.. geram conteúdos, criações, e estruturas racistas.
Somos agentes da mudança e precisamos fazer com que esta discussão evolua para o segundo capítulo! Acredito que somente com editores, estilistas, designers, diretores criativos, fotógrafos, agentes de modelo, assessores de imprensa, jornalistas, maquiadores, e demais profissionais negros (as), trans, e gordos (as). Geraremos conteúdos, criações, e estruturas verdadeiramente humanas, plurais, e diversificadas.
No mais.. é o velho "frisson" que alimenta e re-inventa a semana de Moda. Ela precisa disso!
Ps. E é sempre um grande incômodo ler jornalistas, em sua maioria brancos,
escrevendo: " SPFW aboliu a escravatura" "Os negros agora estão representados". Como em toda a história o fizeram perpetuando "mitos" que atrapalham em muito a busca pela verdadeira des-construção. É preciso pensar mil vezes antes de escrever. Racismo é coisa séria, cruel, e se perpetua nos detalhes.
O papel de significar onde os negros devam ou não sentir-se representados, o que é ou não racismo.. não lhes cabe! Os negros são (soa até patético ter que escrever isso) "seres" diferentes em trajetória, sensibilidade, personalidade, pensamentos e opiniões.. assim como qualquer outra pessoa. Não só podem, como devem discordar entre si com total propriedade de sua singularidade. É coisa nossa!




